Mesmo vários meses após este gol hoje chamado de “Histórico”, eu ainda não tenho palavras para expressar o que senti naquele 116º minuto da semifinal em Salzburgo (4 de maio de 2018, derrota por 2 a 1). O que posso dizer simplesmente é que foi algo incrível e inesquecível. Provavelmente a emoção mais forte que tive depois de marcar um gol. Também senti muito orgulho. Orgulho pelo clube naquele momento e por mim, que, graças ao gol, tive a oportunidade de disputar mais uma final europeia na carreira. E, finalmente, um grande orgulho pelos meus filhos.

Mesmo vários meses após este gol hoje chamado de “Histórico”, eu ainda não tenho palavras para expressar o que senti naquele 116º minuto da semifinal em Salzburgo (4 de maio de 2018, derrota por 2 a 1). O que posso dizer simplesmente é que foi algo incrível e inesquecível. Provavelmente a emoção mais forte que tive depois de marcar um gol. Também senti muito orgulho. Orgulho pelo clube naquele momento e por mim, que, graças ao gol, tive a oportunidade de disputar mais uma final europeia na carreira. E, finalmente, um grande orgulho pelos meus filhos.

O grito de raiva de Rolando, com fome de vitória mesmo nos treinos.

O grito de raiva de Rolando, com fome de vitória mesmo nos treinos.

01| Eu sofri muito

Não foi o momento mais bonito da minha carreira, mas é um momento eterno mesmo assim. O momento mais bonito da minha carreira foi meu primeiro jogo como profissional. Eu havia sonhado há muito tempo com isso, fiz todos os sacrifícios para conseguir, ouvi muita coisa ruim, paguei multas, sofri muito…

Quando eu era criança, quando a professora me perguntava a profissão que eu gostaria de fazer, sempre respondia: “jogador de futebol”.

Eu nasci em Cabo Verde, algum tempo depois do meu nascimento minha mãe foi para a Espanha para trabalhar e poder sustenta a família. Eu fiquei com meus avós, que me criaram. Havia meu pai, mas nós não tínhamos uma verdadeira conexão, é o que posso dizer. Na casa dos meus avós, eu era feliz, mas não era simples, não era fácil todos os dias. Éramos muitos, junto com meus tios, que eram como irmãos para mim. Meus avós tiveram dez filhos. Nós tínhamos o que comer, mas nem sempre era simples.

Na minha cabeça, eu queria ser um jogador de futebol. E mais nada. Eu não ia mal na escola, e minha avó me dizia o tempo todo: “Você pode sonhar com futebol, mas você tem que ser muito sério, trabalhar na sala de aula, você não pode perder um ano, porque não poderemos mais pagar seus estudos. Se você for às aulas, tudo vai ficar bem, caso contrário terá que procurar trabalho.” Eu realmente sofri para chegar lá, mas se tivesse que fazer isso de novo, faria com prazer.

Alguns anos depois, revi minha professora, que começou a chorar antes de me dizer: “Eu sabia que você daria certo…“. É preciso saber que Cabo Verde é um país sem muita estrutura para o futebol, não há possibilidades suficientes no amador, e o futebol profissional é praticamente inexistente. Para tentar a sorte, você precisa ir para Portugal, mas quantos cabo-verdianos não conseguem… É uma ambição impossível.

Eu escutei a minha avó; trabalhei duro na escola, mas a oportunidade de realizar o meu sonho surgiu.

01| Eu sofri muito

Não foi o momento mais bonito da minha carreira, mas é um momento eterno mesmo assim. O momento mais bonito da minha carreira foi meu primeiro jogo como profissional. Eu havia sonhado há muito tempo com isso, fiz todos os sacrifícios para conseguir, ouvi muita coisa ruim, paguei multas, sofri muito…

Quando eu era criança, quando a professora me perguntava a profissão que eu gostaria de fazer, sempre respondia: “jogador de futebol”.

Eu nasci em Cabo Verde, algum tempo depois do meu nascimento minha mãe foi para a Espanha para trabalhar e poder sustenta a família. Eu fiquei com meus avós, que me criaram. Havia meu pai, mas nós não tínhamos uma verdadeira conexão, é o que posso dizer. Na casa dos meus avós, eu era feliz, mas não era simples, não era fácil todos os dias. Éramos muitos, junto com meus tios, que eram como irmãos para mim. Meus avós tiveram dez filhos. Nós tínhamos o que comer, mas nem sempre era simples.

Na minha cabeça, eu queria ser um jogador de futebol. E mais nada. Eu não ia mal na escola, e minha avó me dizia o tempo todo: “Você pode sonhar com futebol, mas você tem que ser muito sério, trabalhar na sala de aula, você não pode perder um ano, porque não poderemos mais pagar seus estudos. Se você for às aulas, tudo vai ficar bem, caso contrário terá que procurar trabalho.” Eu realmente sofri para chegar lá, mas se tivesse que fazer isso de novo, faria com prazer.

Alguns anos depois, revi minha professora, que começou a chorar antes de me dizer: “Eu sabia que você daria certo…“. É preciso saber que Cabo Verde é um país sem muita estrutura para o futebol, não há possibilidades suficientes no amador, e o futebol profissional é praticamente inexistente. Para tentar a sorte, você precisa ir para Portugal, mas quantos cabo-verdianos não conseguem… É uma ambição impossível.

Eu escutei a minha avó; trabalhei duro na escola, mas a oportunidade de realizar o meu sonho surgiu.

A alegria de Rolando após classificar o OM à final da Europa League graças ao agora famoso gol contra o RedBull Salzburg

A alegria de Rolando após classificar o OM à final da Europa League graças ao agora famoso gol contra o RedBull Salzburg

02| Se você não disser isso, não joga!

Primeiro houve a assinatura do meu primeiro contrato profissional, que foi um passo importante, mas não o suficiente, porque o que eu queria, acima de tudo, era entrar e campo e dizer “Eu cheguei lá“.

Eu tinha acabado de sair do sub-19 e meu técnico me disse na semana: “É você quem vai falar com a imprensa”, sem me dizer mais nada. Fiquei desestabilizado, porque nunca tinha feito isso. Mas o treinador me disse: “Não se preocupe, a imprensa quer saber se você deve jogar ou não. Então, você vai responder assim: eu vou jogar. Se você disser isso, você joga; se você não disser isso, você não joga!” Na frente dos jornalistas, eu fiz o que o treinador falou e eles ficaram um pouco surpresos com a minha resposta. E em 27 de agosto de 2004, fui titular no primeiro jogo da temporada, minha primeira partida oficial como profissional: Belenenses x Marítimo. Nós vencemos por 1 a 0. E eu marquei o gol.

É por isso que este foi o momento mais importante da minha vida como jogador profissional, porque depois de tantos anos de privações, de abnegação, de coragem, de luta eu realizava meu maior sonho.

Este gol em Salzburgo, de qualquer forma, mudou minha carreira. Minha carreira não apenas aqui no OM, mas, principalmente, como jogador profissional. Sou defensor, não devo estar presente nas jogadas ofensivas; isso deve acontecer duas, três ou quatro vezes no máximo em uma partida. Eu fiz o aquecimento na frente dos nossos torcedores, era como se eu estivesse começado o jogo como titular. A gente perdia por 1 a 0, depois 2 a 0, em nenhum momento achei que o treinador fosse me colocar. E, de repente, ele me disse: “Rolando, você vai jogar. Eu sei que você não está 100%, mas você pode ficar 20 ou 25 minutos.” Eu nunca imaginei que seria decisivo, entrei para ajudar na defesa, para fechar espaços.

E então veio esse escanteio do Dim (Payet)… Dali em diante, passei a ser frequentemente comparado a Boli e aquele gol em Munique, mas não é a mesma coisa. Boli deu o título da Champions League, o maior torneio de todos. Quando cheguei aqui, me contaram sobre o Boli e eu já o conhecia. Fico feliz por entrar para a história de um clube tão grande. Isso é bom, especialmente para os meus filhos que, naquela noite de maio de 2018, ficaram orgulhosos de seu pai.

02| Se você não disser isso, não joga!

Primeiro houve a assinatura do meu primeiro contrato profissional, que foi um passo importante, mas não o suficiente, porque o que eu queria, acima de tudo, era entrar e campo e dizer “Eu cheguei lá“.

Eu tinha acabado de sair do sub-19 e meu técnico me disse na semana: “É você quem vai falar com a imprensa”, sem me dizer mais nada. Fiquei desestabilizado, porque nunca tinha feito isso. Mas o treinador me disse: “Não se preocupe, a imprensa quer saber se você deve jogar ou não. Então, você vai responder assim: eu vou jogar. Se você disser isso, você joga; se você não disser isso, você não joga!” Na frente dos jornalistas, eu fiz o que o treinador falou e eles ficaram um pouco surpresos com a minha resposta. E em 27 de agosto de 2004, fui titular no primeiro jogo da temporada, minha primeira partida oficial como profissional: Belenenses x Marítimo. Nós vencemos por 1 a 0. E eu marquei o gol.

É por isso que este foi o momento mais importante da minha vida como jogador profissional, porque depois de tantos anos de privações, de abnegação, de coragem, de luta eu realizava meu maior sonho.

Este gol em Salzburgo, de qualquer forma, mudou minha carreira. Minha carreira não apenas aqui no OM, mas, principalmente, como jogador profissional. Sou defensor, não devo estar presente nas jogadas ofensivas; isso deve acontecer duas, três ou quatro vezes no máximo em uma partida. Eu fiz o aquecimento na frente dos nossos torcedores, era como se eu estivesse começado o jogo como titular. A gente perdia por 1 a 0, depois 2 a 0, em nenhum momento achei que o treinador fosse me colocar. E, de repente, ele me disse: “Rolando, você vai jogar. Eu sei que você não está 100%, mas você pode ficar 20 ou 25 minutos.” Eu nunca imaginei que seria decisivo, entrei para ajudar na defesa, para fechar espaços.

E então veio esse escanteio do Dim (Payet)… Dali em diante, passei a ser frequentemente comparado a Boli e aquele gol em Munique, mas não é a mesma coisa. Boli deu o título da Champions League, o maior torneio de todos. Quando cheguei aqui, me contaram sobre o Boli e eu já o conhecia. Fico feliz por entrar para a história de um clube tão grande. Isso é bom, especialmente para os meus filhos que, naquela noite de maio de 2018, ficaram orgulhosos de seu pai.

Último jogo da temporada 2017/18, OM x Amiens, minuto 77. A muralha do Olympique deixa o campo lesionado, com ruptura do tendão de Aquiles…

Último jogo da temporada 2017/18, OM x Amiens, minuto 77. A muralha do Olympique deixa o campo lesionado, com ruptura do tendão de Aquiles…

03| Eu percebi quando me levantei…

E dias depois, eu me machuquei (17 de maio de 2108, OM x Amiens, 38 minutos). O máximo que havia perdido eram dois ou três jogos seguidos. Nunca tinha passado por um período de recuperação tão longo.

Eu sabia que não estava 100%, sabia que era o último jogo da temporada, mas prometi aos meus filhos que iríamos juntos para o campo. A gente não tinha podido fazer isso nas minhas primeiras temporadas no clube porque sempre estivera suspenso. E eles tinham visto os outros jogadores da equipe fazerem isso com seus filhos, então eu devia isso a eles, embora eu não estivesse plenamente em forma.

E então o jogo começou, eu estava bem. À vontade. Sem dor, sem desconforto, sem problemas, tendo saído de dois meses de preocupações recorrentes. Incrível, eu estava tranquilo, concentrado no meu jogo. Mesmo na jogada (aos 77 minutos), não penso em nada ruim. Eu digo para o médico: “Olhe só, meu dedo da mão está quebrado“. O médico olha para mim, surpreso: “Você não está sentindo nada? Você vai continuar? Levanta!” E eu digo: “Sim, vou continuar, não está doendo!“. Mas percebi quando me levantei. Quando fiquei de pé, aí tudo ficou claro.

03| Eu percebi quando me levantei…

E dias depois, eu me machuquei (17 de maio de 2108, OM x Amiens, 38 minutos). O máximo que havia perdido eram dois ou três jogos seguidos. Nunca tinha passado por um período de recuperação tão longo.

Eu sabia que não estava 100%, sabia que era o último jogo da temporada, mas prometi aos meus filhos que iríamos juntos para o campo. A gente não tinha podido fazer isso nas minhas primeiras temporadas no clube porque sempre estivera suspenso. E eles tinham visto os outros jogadores da equipe fazerem isso com seus filhos, então eu devia isso a eles, embora eu não estivesse plenamente em forma.

E então o jogo começou, eu estava bem. À vontade. Sem dor, sem desconforto, sem problemas, tendo saído de dois meses de preocupações recorrentes. Incrível, eu estava tranquilo, concentrado no meu jogo. Mesmo na jogada (aos 77 minutos), não penso em nada ruim. Eu digo para o médico: “Olhe só, meu dedo da mão está quebrado“. O médico olha para mim, surpreso: “Você não está sentindo nada? Você vai continuar? Levanta!” E eu digo: “Sim, vou continuar, não está doendo!“. Mas percebi quando me levantei. Quando fiquei de pé, aí tudo ficou claro.

04| Eles nem me deixaram tempo para pensar

Foi no vestiário que me dei conta da gravidade da lesão. O médico explicou que era uma ruptura do tendão. Que eu ficaria seis meses parado. Eu nunca havia passado por isso. Não sabia o que fazer. O que me preocupava não era propriamente a lesão, mas minha atitude, meu moral, minha cabeça… Como eu enfrentaria esse longo período de inatividade? Mas posso dizer hoje que tudo correu muito bem. Foi um período em que curti muito meus filhos e minha família.

 

Os dirigentes foram muito bons comigo. O treinador veio até mim ao final da partida para deixar claro que ele me apoiava; o presidente e o diretor esportivo também foram atenciosos. Eles nem me deram tempo para pensar, imediatamente me disseram: “Não se preocupe com a sua situação, estávamos discutindo sobre a renovação do contrato, mas nem falaremos mais nisso. Você será operado, então cuide-se, fique tranquilo, faremos isso mais tarde.” Foi um sinal forte do clube. Senti como se fosse uma recompensa pelo trabalho e pela seriedade que sempre encarei os treinos, os jogos, a serviço da equipe e do clube.

04| Eles nem me deixaram tempo para pensar

Foi no vestiário que me dei conta da gravidade da lesão. O médico explicou que era uma ruptura do tendão. Que eu ficaria seis meses parado. Eu nunca havia passado por isso. Não sabia o que fazer. O que me preocupava não era propriamente a lesão, mas minha atitude, meu moral, minha cabeça… Como eu enfrentaria esse longo período de inatividade? Mas posso dizer hoje que tudo correu muito bem. Foi um período em que curti muito meus filhos e minha família.

 

Os dirigentes foram muito bons comigo. O treinador veio até mim ao final da partida para deixar claro que ele me apoiava; o presidente e o diretor esportivo também foram atenciosos. Eles nem me deram tempo para pensar, imediatamente me disseram: “Não se preocupe com a sua situação, estávamos discutindo sobre a renovação do contrato, mas nem falaremos mais nisso. Você será operado, então cuide-se, fique tranquilo, faremos isso mais tarde.” Foi um sinal forte do clube. Senti como se fosse uma recompensa pelo trabalho e pela seriedade que sempre encarei os treinos, os jogos, a serviço da equipe e do clube.

Rolando vê uma luz no fim do túnel depois de 6 meses em recuperação. O retorno  do defensor se aproxima.

Rolando vê uma luz no fim do túnel depois de 6 meses em recuperação. O retorno  do defensor se aproxima.

05| Inter: Você não está presente, mas ainda assim está com o grupo...

Eu passei o início da temporada no meu canto, trabalhando duro para voltar. Isso não me impediu de acompanhar a evolução do grupo. Eu estava sempre por perto. Por exemplo, temos dois grupos no WhatsApp, um para o trabalho, no qual o Rani (Berbachi, coordenador esportivo) distribui as informações da vida cotidiana: “Compromisso em tal hora, reunião em tal hora… etc.” E um grupo mais privado entre os jogadores, no qual trocamos mensagens e conversamos. Em algumas ocasiões, alguns riram de mim ou tiraram sarro… Essa é uma boa maneira de manter o contato. Você não está presente, mas ainda assim está com o grupo…

Eu me mantinha calmo, embora não estivesse com meus companheiros para viver as sensações. Eu era mais como um torcedor. Trabalhava longe do grupo. Isso foi muito difícil. Provavelmente o mais difícil. Chegava duas horas antes de todo mundo e continuava bem depois de todos já terem deixado a Commanderie. Eu via meus amigos irem treinar, jogar bola, marcar gols, etc… enquanto isso, fazia exercícios de todos os tipos primeiro para me curar, depois para poder voltar. Foi infernal… Eu tinha que correr, correr mais, correr sempre.

 

Eu via uma luz no fim do túnel todos os dias, às vezes ela se afastava, no dia seguinte ela crescia… É uma fase obrigatória, porque o objetivo é recuperar todas as sensações do corpo, para que ele recupere seu potencial e possa trabalhar normalmente como antes da lesão. Eu sabia que era preciso passar por isso para voltar a jogar. Para ter prazer novamente. Para fazer o meu trabalho, que é, antes de mais nada, defender bem e ser eficiente.

 

Lembro-me de quando a equipe médica me liberou: “Agora sim, você pode voltar a treinar normalmente“. Naquele momento, passou pela minha cabeça os dias em que, depois da operação, não conseguia nem andar, dirigir, não podia nem ir buscar meus filhos na escola. Eu usava uma bota enorme na perna.

É verdade que senti saudade do futebol. Senti saudade do meu trabalho. Meu trabalho, como eu digo o tempo todo, é defender bem. Eu erro, não sou perfeito, nem no campo nem na vida, mas é assim que aprendemos e seguimos em frente. É o que eu digo aos jovens. Não me considero um modelo porque cometo erros. Costumo dizer isso para o “pequeno Bouba”, que tinha cerca de quinze anos quando chegou ao grupo profissional. Hoje, eu digo a ele: “Você não é mais meu pequeno Bouba”. E, ao ver como ele evoluiu, fico muito orgulhoso. Ele ouve tudo, tem muitas qualidades, mas deve continuar a trabalhar. Sei que em alguns anos, quando eu não for mais jogador profissional, estarei em um grande estádio para vê-lo jogar por um grande clube.

05| Inter: Você não está presente, mas ainda assim está com o grupo...

Eu passei o início da temporada no meu canto, trabalhando duro para voltar. Isso não me impediu de acompanhar a evolução do grupo. Eu estava sempre por perto. Por exemplo, temos dois grupos no WhatsApp, um para o trabalho, no qual o Rani (Berbachi, coordenador esportivo) distribui as informações da vida cotidiana: “Compromisso em tal hora, reunião em tal hora… etc.” E um grupo mais privado entre os jogadores, no qual trocamos mensagens e conversamos. Em algumas ocasiões, alguns riram de mim ou tiraram sarro… Essa é uma boa maneira de manter o contato. Você não está presente, mas ainda assim está com o grupo…

Eu me mantinha calmo, embora não estivesse com meus companheiros para viver as sensações. Eu era mais como um torcedor. Trabalhava longe do grupo. Isso foi muito difícil. Provavelmente o mais difícil. Chegava duas horas antes de todo mundo e continuava bem depois de todos já terem deixado a Commanderie. Eu via meus amigos irem treinar, jogar bola, marcar gols, etc… enquanto isso, fazia exercícios de todos os tipos primeiro para me curar, depois para poder voltar. Foi infernal… Eu tinha que correr, correr mais, correr sempre.

 

Eu via uma luz no fim do túnel todos os dias, às vezes ela se afastava, no dia seguinte ela crescia… É uma fase obrigatória, porque o objetivo é recuperar todas as sensações do corpo, para que ele recupere seu potencial e possa trabalhar normalmente como antes da lesão. Eu sabia que era preciso passar por isso para voltar a jogar. Para ter prazer novamente. Para fazer o meu trabalho, que é, antes de mais nada, defender bem e ser eficiente.

 

Lembro-me de quando a equipe médica me liberou: “Agora sim, você pode voltar a treinar normalmente“. Naquele momento, passou pela minha cabeça os dias em que, depois da operação, não conseguia nem andar, dirigir, não podia nem ir buscar meus filhos na escola. Eu usava uma bota enorme na perna.

É verdade que senti saudade do futebol. Senti saudade do meu trabalho. Meu trabalho, como eu digo o tempo todo, é defender bem. Eu erro, não sou perfeito, nem no campo nem na vida, mas é assim que aprendemos e seguimos em frente. É o que eu digo aos jovens. Não me considero um modelo porque cometo erros. Costumo dizer isso para o “pequeno Bouba”, que tinha cerca de quinze anos quando chegou ao grupo profissional. Hoje, eu digo a ele: “Você não é mais meu pequeno Bouba”. E, ao ver como ele evoluiu, fico muito orgulhoso. Ele ouve tudo, tem muitas qualidades, mas deve continuar a trabalhar. Sei que em alguns anos, quando eu não for mais jogador profissional, estarei em um grande estádio para vê-lo jogar por um grande clube.

ROLANDO

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